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Pires, Natália Albino. “Referências antroponímicas e
toponímicas em romances de tradição oral moderna portuguesa editados entre
1828 e 1960”. Culturas Populares. Revista Electrónica 4 (enero-junio
2007). http://www.culturaspopulares.org/textos4/articulos/pires.htm ISSN:
1886-5623 |
Referências
antroponímicas e toponímicas em romances de tradição
oral moderna
portuguesa editados entre 1828 e 1960
Natália Albino Pires
Escola Superior de Educação de Coimbra
Resumen
En este artículo analizamos la importancia de
antropónimos y topónimos en un corpus de 1721 versiones de romances de
la tradición oral moderna portuguesa editados entre 1828 y 1960 e intentamos
caracterizar las opciones de los informantes, sea para los nombres de los
personajes, sea para nombres de lugares, relacionándolas con la especificidad
de la variación en el proceso de tradicionalización del romancero.
Palabras clave: Romancero, tradición oral moderna portuguesa,
antropónimos,
topónimos.
Abstract
This paper analyses the
importance of anthroponyms and toponyms in a corpus of 1721 versions of modern
Portuguese oral ballads edited between 1821 and 1960, characterizing the
informers’ options of the characters’ or places’ names, and relating them to
the specific variation of the ballad’s traditionalization.
Keywords: Ballads, Portuguese Modern Oral Tradition,
Anthroponyms, Toponyms.
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E |
ntre os estudiosos que trabalham no âmbito do romanceiro é comum a assunção de que o género romancístico possui uma linguagem específica que o distingue de outros género literários. Porém, apesar de o estudo do romanceiro tradicional com o intuito de revelar os traços originais da sua linguagem ou de mostrar a sua especificidade face à de outros géneros literários não ser uma realidade nova, a grande maioria dos estudos data dos anos sessenta e setenta e debruça-se maioritariamente sobre o romanceiro velho e principalmente sobre aspectos como a presença e a importância de fórmulas, as inversões da ordem linear dos itens lexicais nas frases, as alternâncias de tempos verbais e o estilo.
Por seu turno, ainda que Diego Catalán insista em variadíssimos artigos (Catalán, 1976 e 1997) na necessidade de se estudar a língua do romanceiro, escassos são os estudos que analisam estruturas linguísticas em textos romancísticos[1]. Assim e na sequência de um estudo mais abrangente de um corpus de 1721 versões de romances[2], dedicamos as linhas seguintes ao estudo e caracterização das referências antroponímicas e toponímicas presentes em romances da tradição oral moderna portuguesa editados entre 1828 e 1960[3].
Do estudo que efectuámos, salienta-se o facto de a classe Nome ser uma das classes de palavras com maior percentagem de ocorrência no corpus[4]. Tal como se pode comprovar no Quadro I que apresentamos no final como Anexo I, 22,4% do total de tokens do corpus pertence à classe N e 33,9% dos tokens que ocorrem em fim de verso são N, apesar de apenas 16,5% do total de N ocorrerem em fim de verso. Para a classe N, os dados estatísticos que obtivemos revelam-nos também que, para o corpus que estudámos, os nomes comuns são substancialmente mais importantes do que os nomes próprios, porquanto 89% dos N que ocorrem no corpus pertencem à subclasse dos comuns e apenas 11% à subclasse dos próprios.
No que se refere aos nomes próprios, da observação dos dados do dicionário de formas flexionadas por ordem alfabética (que se pode consultar no Anexo II), imediatamente constatamos que, no corpus estudado, o número de antropónimos é superior ao de topónimos. Por outro lado, atestamos a presença de um elevado número de formas antroponímicas e toponímicas que nos remetem para uma das singularidades do género romancístico que tem vindo a ser salientada por diversos estudiosos[5]: a variação linguística decorrente do processo de actualização dos textos.
Efectivamente, Menéndez Pidal (1953) considera que um dos traços fundamentais do processo de tradicionalização do género romancístico diz respeito à introdução de variantes nos textos tanto no momento da sua memorização como no momento da sua recitação, defendendo que as variantes são primordiais para a preservação dos textos no seio das comunidades já que sem a sua ocorrência os informantes terão mais dificuldade em reconhecer o texto como seu. No entanto, apesar de advogar a importância das variantes para a sobrevivência do texto tradicional, o autor chama a atenção para o facto de a sua introdução não ser um processo aleatório, mas antes controlado por determinadas regras contextuais e semânticas, implícitas para o informante.
Nesta sequência, importa ter
presente que, tal como afirma Catalán (1997:52), um romance não é “primero
estructura y luego tradición, sino que es, al mismo tiempo y en todo momento,
tradición estructurada o estructura tradicional”, pois “todo poema tradicional
es, por esencia, una estructura ‘imperfecta’ que busca dinámicamente su
‘perfección’ mediante el desarrollo de posibilidades poéticas contradictorias,
que preexistían en potencia en el estado anterior del texto”. Portanto,
é de grande relevância a participação do portador de
folclore no processo de variação do romance. Esta participação se manifesta
através de alterações caracterizadas por supressão ou substituição de segmentos
ou versos ou acréscimos a seu gôsto para embelezamento ou ampliação do romance
sempre condicionada por factôres de ordem geográfica, social e cultural. Cada
variante representa fundamentalmente um momento psicológico na história do
romance, a forma como êste se fixou na memória do portador de folclore, depois
de lhe ferir a sensibilidade (Nascimento, 1964: 38)
Assim e embora os exemplos aqui apresentados não tenham a pretenção de ser exaustivos, no que concerne aos nomes das personagens e às refências geográficas, no corpus estudado encontramos actualizações lexicais que nos merecem destaque, primeiro, porque denotam claramente a interferência do informante com vista à actualização do “seu” texto e, segundo, porque dessas actualizações resulta um significativo número de formas, para as quais nem sempre se torna evidente quais os vocábulos que lhes dão origem.
Observadas as opções lexicais dos informantes, todas elas pertinentes para a caracterização do processo de actualização dos referentes actanciais, constatamos a presença de formas lexicais que evidenciam que determinadas referências antroponímicas e toponímicas deixaram de pertencer ao seu quotidiano e, de certo modo, perderam referente no seu imaginário colectivo.
Deste modo, no romance “Morte do Príncipe D. João”, encontramos
os topónimos Salamanha e Salhamanha por Salamanca[6]. No romance “Perseguição de Búcar pelo Cid”, surgem-nos as formas Alcidro, Cidro e Oucidres por Cid [7].
No romance “Conde Claros vestido de frade”, inventariam-se, entre outras, as
formas Além-Mar, La Mar, Montalbano, Montalbom, Montalvão, Montarvário, Monte
Calvário, Montealval, Montealvão, Montelavar e Valdalvar por Montalvar[8]. No romance “Tarquino e Lucrécia”, ocorre a forma
Grameneza por Lucrécia[9] e, no romance
“Conde Ninho”, a forma Aninho por Niño[10].
Do romance “Conde Alarcos”, salienta-se, por um lado, a variação ao nível do nome identificativo da personagem e, por outro lado, o facto de os informantes optarem por empregar, em algumas versões, as referências antroponímicas como toponímicas, transformando, portanto, o antropónimo em topónimo. Assim, constatamos que nas versões que estudámos deste romance o nome da personagem masculina alterna entre Aberto, Albérios, Alvário, Alverde e Alvers[11] por Alberto[12] e Elarde, Ilardo e Lardo por Alarcos[13]. Em contrapartida, a partir das ocorrências de Alares, Alaverca, Alberca, Alberga, Alhais, Alvelo, Alvelos, Alvera e Alverde por Alarcos[14] verificamos que os informantes transformaram o antropónimo em topónimo.
Do romance “Conde da Alemanha”, evidencia-se o facto de, no processo de tradicionalização do romance na tradição oral moderna portuguesa, o antropónimo adjectival Alemán que ocorre no texto antigo[15] se ter convertido numa referência toponímica. Deste romance destacamos, então, os topónimos Alamanha, Alamar[16], Amarantes[17], Aramanha, Germanha e Lamária por Alemanha[18].
Da análise das
formas nominais antroponímicas e toponímicas presentes no corpus e elencadas no dicionário que apresentamos, destaca-se a presença de
formas que evidenciam fenómenos populares de alternâncias consonânticas e
vocálicas várias, de metátese e de rotacismo. Nesta sequência, do romance
“Santa Iria”, ressaltam os antropónimos Eiria, Irédia e Ireia por Iria[19] e Irana e Irena por Irene[20]. Das opções lexicais dos informantes
relativas aos referentes actancias do texto que ocorrem no corpus de romances da tradição oral moderna portuguesa estudados,
distinguimos aqui formas populares como Agito e Ingito por Egipto[21], Angénia, Augénia, Ausénia, Ausência e Ausênia por Eugénia[22], Arangão, Arengão e Cargão[23] por Aragão[24], Cales, Calres, Calros e Carles por Carlos[25], Caterina e Catrina por Catarina[26], Imbelina e Imbulina por Umbelina[27], Issirvana, Selivana e Silvânia por Silvana[28] ou Melisende, Melisendra e Melizênia por Melisenda[29].
Quando observamos os dados relativos aos nomes próprios,
constatamos que, para além das formas acima enunciadas, no corpus ocorre também um número significativo de antropónimos e topónimos,
indubitavelmente corruptelas, para os quais não nos é possível rastrear o
vocábulo que lhes dá origem. Nesta situação, encontramos, entre outros muitos
exemplos dignos de nota, formas como: Alfástica[30], Algá[31], Aliviada[32], Argelim[33], Argil[34], Barcelones[35], Berberónia[36], Brancamilha[37], Crandolina[38], Cravelinda[39], Estiço[40], Infância[41], Infeliza[42], Santa Nabalha[43], Santo Precursor[44], Saselas[45], Senhora Deloviana[46] ou os antropónimos Ablançua, Galaçua, Galançua, Galançuda, Galanducha e Galanduchas[47] que nos parecem variantes de uma mesma forma,
apesar de não nos ser possível identificar o vocábulo que lhes dá origem.
Por fim, dos dados do dicionário, salientamos a forma Iremedar por tremedalA[48] por se tratar de uma forma à qual o informante, para além de ter actualizado o referente, alterou a classe gramatical, criando um nome próprio (Iremedar) a partir de um adjectivo (tremedal).
Os dados estatísticos referentes aos nomes próprios que acima expusemos e os exemplos citados levam-nos, então, ao encontro das palavras de Webber (1980b: 780), que nos lembra que “en el romancero moderno llama la atención antes que nada la parquedad relativa de nombres propios tanto personales como geográficos”. No entanto, se bem que as entradas do dicionário referentes aos nomes próprios pareçam contradizer as palavras da autora, após a sua análise, constatamos que, na realidade, o número de antropónimos e de topónimos presentes no corpus estudado é reduzido. Da sua observação, atestamos um significativo número de formas (antroponímicas e toponímicas) que, na sequência do processo de actualização, resultam em bastos casos em corruptelas.
Da observação das entradas do dicionário e tal como já afirmámos acima, destaca-se o facto de o número de topónimos presente no corpus ser bastante mais reduzido do que o de antropónimos. Parece-nos, no entanto, que os dados referentes aos topónimos só podem encontrar a sua verdadeira significância quando analisados em comparação com os relativos aos advérbios de lugar[49]. Com efeito, não obstante não ser nosso objectivo analisar aqui as estruturas locativas dos romances da tradição oral moderna portuguesa[50], do cotejo das formas toponímicas e das formas adverbiais, torna-se notorio que, no corpus, as localizações da acção se fazem preferencialmente com recurso a estruturas adverbiais, cuja principal função é permitirem a indefinição da localização da acção e cuja elevada frequência opera como um processo de actualização necessário à sobrevivência do texto (Pires, 2006).
Os dados do dicionário e os exemplos supra apresentados confirmam que ao nível da antroponímia e da toponímia ocorrem substanciais variações lexicais que denotam a interferência dos informantes com vista à actualização do “seu” texto. Os dados revelam-nos, ainda, que uma das particularidades do léxico antroponímico e toponímico dos romances da tradição oral moderna portuguesa editados entre 1828 e 1960 é a presença de um significativo número de formas que as gramáticas normativas e tradicionais consideram incorrectas por darem conta de fenómenos populares e resultarem em corruptelas para as quais nem sempre se torna claro qual o vocábulo que lhes deu origem.
Em conclusão, examinando com mais acuidade os dados do dicionário e os contextos de ocorrência das respectivas formas nos textos, fica patente que, não obstante apenas 11% das formas nominais serem nomes próprios, as referencializações actanciais e espaciais são de suma importância para o nosso corpus, muito embora de somenos importância o facto de serem ou não verídicas ou reais, ainda que sejam indubitavelmente verdadeiras para o informante. Por seu turno, do levantamento feito acima e da análise dos dados, cremos lícito afirmar, porquanto nos parece incontestável, que as referências actanciais, tanto antroponímicas como toponímicas, essenciais para a sobrevivência do texto, são sempre respeitadas pelo informante no acto de recitação, ainda que na óptica do investigador possam não corresponder a dados realísticos ou resultem em corruptelas.
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Anexo I
Distribuição de Classes de palavras no corpus
(romances da tradição oral moderna portuguesa
editados entre 1828 e 1960)
|
|
|
Quadro I.1 |
|
Quadro I.2 |
|
Quadro I.3 |
||
|
Classes de Palavras no Corpus |
|
Total de Tokens de cada classe
gramatical em todo o Corpus |
|
Total de Tokens de cada classe
gramatical em fim de verso |
|
% de cada classe
gramatical em fim de verso |
||
|
|
Total |
% |
|
Total |
% |
|
||
|
A |
|
11147 |
2,5% |
|
2011 |
4,2% |
|
18,0% |
|
ADV |
|
26620 |
6,1% |
|
1850 |
3,9% |
|
6,9% |
|
N |
|
98218 |
22,4% |
|
16181 |
33,9% |
|
16,5% |
|
Q |
|
10475 |
2,4% |
|
386 |
0,8% |
|
3,7% |
|
V |
|
102288 |
23,4% |
|
24219 |
50,7% |
|
23,7% |
|
Outras
Classes |
|
188982 |
43,2% |
|
2786 |
5,8% |
|
1,5% |
|
Parêntesis |
|
|
291 |
0,6% |
|
|||
|
Total |
|
437730 |
100,0% |
|
47724 |
100,0% |
|
10,9% |
Anexo II
Formas Flexionadas por ordem alfabética –
Nomes Próprios
Abacó [Abacó]
(1) - 250 (1)
53
Abel [Abel]
(8) - 670 (8)
4, 7, 19, 20, 25, 29, 33, 37
Ablançua [Ablançua]
(3) - 187 (3)
1, 14, 23
Abraão [Abraão]
(9) - 247 (4)
2, 6, 28, 31 248 (4) 2, 6,
29, 32 250 (1) 32
Abril [Abril]
(8) - 429 (1)
37 431
(1) 32 506 (1) 1 522 (1) 1 523 (1) 1 524 (1) 1 998 (1) 15 1286 (1) 1
Adelina [Adelina]
(16) - 1191 (7)
1, 1, 4, 5, 9, 12, 12 1192 (6) 1, 1,
10, 15, 16, 16 1201 (3) 1, 23, 25
Adelinha [Adelinha]
(1) - 1169 (1)
4
Adelininha [Adelina]
(3) - 1169 (3)
1, 20, 23
Adininha [Adininha]
(1) - 1189 (1)
2
Adonay [Adonay]
(2) - 250 (2)
30, 30
Adragão [Adragão]
(1) - 1422 (1)
1
Adriana [Adriana]
(1) - 413 (1)
1
Afonso [Afonso]
(1) - 507 (1)
2
África [África]
(1) - 219 (1)
8
Agito [Agito]
(1) - 1633 (1)
1
Alá [Alá] (2) - 41 (1)
37 110
(1) 142
Alado [Alado]
(11) - 771 (11)
4, 23, 23, 23, 29, 29, 30, 30, 30, 36, 36
Alamanha [Alamanha]
(15) - 795 (2)
2, 12 802
(1) 14 824 (3) 2, 13, 16 829 (2) 2, 14 832 (2) 2, 9 833 (1) 2 838 (4) 2, 6, 15, 27
Alamar [Alamar]
(2) - 807 (2)
5, 12
Alarcos [Alarcos] (13) - 230 (6) 2, 6, 32, 40, 45, 47 663a (1) 7 743 (5) 6, 7, 7, 17, 23 749 (1)